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O próximo nível da segurança digital: Valorant e a exigência de BIOS atualizada
Se você é um jogador assíduo de Valorant, já deve estar acostumado com o Vanguard, o sistema anti-cheat da Riot Games que inicia junto com o Windows. No entanto, uma nova movimentação da desenvolvedora está dando o que falar na comunidade de hardware e jogos. Recentemente, diversos usuários começaram a receber notificações informando que, para continuar jogando, será necessário realizar uma atualização de BIOS em seus computadores. Mas por que um jogo exigiria algo tão profundo e, para muitos, intimidador?
Para entender essa mudança, precisamos olhar para a eterna batalha entre desenvolvedores e criadores de trapaças. O Vanguard sempre foi conhecido por operar no nível do Kernel (o núcleo do sistema operacional). Agora, a Riot está indo um passo além, exigindo que o hardware e o firmware da placa-mãe estejam em total conformidade com os padrões de segurança mais modernos. Isso acontece porque os trapaceiros começaram a utilizar métodos que burlam o sistema antes mesmo de o Windows ser carregado.
O que é a BIOS e por que ela se tornou o novo campo de batalha?
A BIOS, ou UEFI nos sistemas modernos, é o primeiro software que o seu computador executa quando você aperta o botão de ligar. Ela é responsável por verificar se todo o hardware está funcionando e por passar o bastão para o sistema operacional. Se um software mal-intencionado conseguir se esconder nesse nível, ele se torna virtualmente invisível para o Windows e para a maioria dos antivírus comuns. É exatamente aqui que o problema começa para os jogadores de Valorant.
Ao exigir que a BIOS esteja atualizada, a Riot Games quer garantir que vulnerabilidades conhecidas em versões antigas de firmwares não sejam exploradas por cheats de hardware. Esses dispositivos externos ou softwares de baixo nível podem enganar o sistema, fazendo-o acreditar que o computador é seguro quando, na verdade, possui ferramentas de trapaça ativas. Manter a BIOS em dia fecha essas brechas de segurança que poderiam comprometer a integridade das partidas competitivas.
A trindade da segurança: Secure Boot, TPM 2.0 e Vanguard
Se você migrou para o Windows 11, certamente ouviu falar do TPM 2.0 e do Secure Boot. Estes são os pilares que a Riot está reforçando. O Trusted Platform Module (TPM) funciona como um cofre digital dentro do seu processador ou placa-mãe, armazenando chaves criptográficas essenciais. Já o Secure Boot garante que apenas softwares assinados e confiáveis possam iniciar durante o boot do PC.
- Vanguard: O vigia que monitora o sistema em tempo real.
- TPM 2.0: A prova de identidade do seu hardware, evitando que banimentos de conta sejam facilmente contornados.
- Secure Boot: O porteiro que impede que “invasores” entrem no sistema antes do jogo começar.
A nova exigência foca em garantir que essas tecnologias não estejam apenas ligadas, mas funcionando corretamente em suas versões mais estáveis. Versões antigas de BIOS podem ter falhas na implementação do TPM que permitem a clonagem de IDs de hardware, algo que os trapaceiros usam para voltar ao jogo após serem banidos (o famoso HWID ban).
Os riscos e desafios de atualizar a BIOS
Apesar de necessária para a segurança, a atualização de BIOS não é um processo isento de riscos, e é aqui que mora a preocupação de muitos usuários. Diferente de atualizar um driver de vídeo ou um aplicativo, um erro durante a gravação da BIOS pode, em casos extremos, inutilizar a placa-mãe (o que chamamos de bricking). Se a energia cair no meio do processo ou se o arquivo estiver corrompido, o computador pode não ligar mais.
Por isso, a recomendação para os jogadores é sempre buscar o site oficial do fabricante da placa-mãe (como ASUS, Gigabyte, MSI ou ASRock) e seguir rigorosamente as instruções. Muitas placas modernas possuem sistemas de recuperação, como o Flash BIOS Button, que mitigam esse risco, mas o procedimento ainda exige cautela e atenção redobrada. É um preço alto que a Riot está pedindo para manter o ambiente de jogo limpo.
Por que a Riot tomou essa decisão agora?
O mercado de trapaças evoluiu para o uso de dispositivos DMA (Direct Memory Access). Esses aparelhos são conectados fisicamente à placa-mãe e conseguem ler a memória RAM do PC sem passar pelo processador, tornando-os quase impossíveis de detectar via software tradicional. A única forma de combater isso de forma eficaz é através de uma cadeia de confiança que começa no hardware e no firmware.
Ao forçar a atualização da BIOS, a Riot dificulta imensamente a vida dos desenvolvedores de cheats que dependem de brechas em firmwares antigos. É um movimento agressivo, mas que demonstra o compromisso da empresa em manter o Valorant como um dos cenários competitivos mais justos do mundo, mesmo que isso signifique causar um pouco de dor de cabeça técnica para uma parcela dos jogadores.
Como se preparar e o que verificar no seu PC
Se você recebeu a mensagem de erro, o primeiro passo é verificar a versão atual da sua BIOS. Você pode fazer isso digitando “Informações do Sistema” no menu iniciar do Windows. Lá, procure por “Versão/data do BIOS”. O próximo passo é visitar o suporte da fabricante do seu computador ou placa-mãe e comparar com a versão mais recente disponível para download.
Lembre-se: se o seu jogo está rodando normalmente, não há necessidade de pressa. Essa exigência parece estar sendo implementada de forma gradual, atingindo inicialmente usuários com configurações específicas ou comportamentos suspeitos detectados pelo sistema. No entanto, manter seu sistema atualizado é sempre uma boa prática, não apenas para o Valorant, mas para a segurança geral dos seus dados e a estabilidade do Windows.
No fim das contas, essa evolução nos mostra que o futuro dos jogos online está intrinsecamente ligado à segurança do hardware. O que antes era apenas ligar e jogar, agora exige que o jogador entenda um pouco mais sobre o funcionamento interno da sua máquina. É a tecnologia evoluindo para garantir que a habilidade seja o único fator determinante dentro do servidor.






